16 de mai de 2011

Estudo de Caso (1)


Lucas

Lucas adora futebol e começou entusiasmado na escolinha, mas como geralmente era o último a ser chamado para entrar no time preferiu passar para natação. Ele já freqüentou várias escolinhas de esporte, mas sempre desiste e quer fazer algo diferente. Na sala de aula, Lucas é bom de leitura e inventa histórias divertidas, mas não consegue passar para o papel, pois é lento e detesta escrever. A professora diz que Lucas é preguiçoso, vive devruçado sobre a carteira, esquece os trabalhos em casa e deixa o caderno e materiais espalhados. Ele é uma criança simpática e sociável, mas no recreio fica sozinho. Às vezes Lucas brinca com as meninas, o que já gerou comentários. A aula de artes é outro desafio, os colegas o ajudam, mas o resultado nem sempre agrada e Lucas acaba jogando fora.


Lucas apresenta sinais evidentes de problemas de coordenação motora. Esses problemas, atualmente denominados Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação Motora, são bastante comuns na infância.


Sugestão de plano de tratamento


Lucas foi avaliado e os resultados indicam sinais de transtorno do movimento de base sensorial do tipo transtorno de postura. As Observações Clínicas de Integração Sensorial confirmam baixo tônus postural, associado à equilíbrio, coordenação bilateral e função manual abaixo do esperado para a idade. Esses problemas parecem ter impacto no seu desempenho diário, contribuindo para cansaço, tendência a ficar deitado na carteira, letra feia e pobre desempenho nos esportes. Na entrevista inicial Lucas indicou que gostaria de jogar futebol, pois adora esporte, mas que precisa muito melhorar a letra e aumentar a velocidade na escrita, pois está cansado da professora chamar sua atenção.


Meta principal: melhorar a letra e aumentar a velocidade da escrita.


Raciocínio Clínico: Elaborar hipóteses: Por que Lucas não tem boa letra ?


• Baixo tônus e pobres reações posturais, associados à baixa discriminação de sensações vestibulares e proprioceptivas, resultam em cansaço e tensão nos ombros e tronco.
• Baixo tônus proximal leva a estabilização distal e aumento de força no lápis.
• Devido a pobre coordenação bilateral, Lucas não estabiliza o caderno com a mão esquerda.
• Pobre coordenação fina e função manual prejudicam a destreza no manejo do lápis.
• Atenção dividida entre controle da postura e tarefas escolares causa distração.
• Pobre discriminação tátil na mão e dedos resulta em dependência excessiva da visão para controle da movimentação da mão e lentidão.
• Experiências negativas reduzem a confiança em si mesmo.

Modificar a criança: O que é possível modificar na criança ?


• Melhorar discriminações vestibulares e proprioceptivas por meio de brincadeiras, envolvendo balanços e movimentação ampla do corpo no espaço.
• Fortalecer os extensores do tronco e melhorar padrões posturais por meio de atividades que enfatizam a posição prona e desafiem o equilíbrio (ex: balançar em uma rede em posição prona, aprender a se impulsionar sozinho no balanço).
• Melhorar a coordenação bilateral por meio de atividades graduadas, envolvendo uso bilateral das mãos (ex: acertar um balão com uma raquete segurada com as duas mãos, agarrar uma bola grande enquanto balança sentado em uma rede e atirá-la em um alvo).
• Melhorar a discriminação tátil e destreza manual por meio de brincadeiras com materiais de diferentes texturas (ex: álcool, talco, espuma de barbear, grãos) e jogos com pinça, dados e contas.
• Promover experiências positivas de escrita usando abordagem multisensorial, como por exemplo, escrever as letras no ar, escrever sobre materiais de diferentes texturas, moldar letras em massinha e escrever com diferentes utensílios e canetas de cores variadas.

Modificar o ambiente: Como modificar o ambiente para dar suporte ao desempenho ?

• Examinar o ambiente de estudo, se a carteira e a cadeira são de tamanhos apropriados.
• Verificar se há estimulação excessiva no ambiente de estudo e na sala de aula e se o trabalho a ser feito é interessante para a criança.
• Trocar a criança de lugar na sala de aula para mais perto do quadro ou da professora.
• Considerar a possibilidade de uso de prancha com pequena inclinação (plano inclinado) para dar suporte ao caderno, pois pode facilitar a escrita.
• Orientar a professora a permitir pausas para descanso e a solicitar atividade com mais movimento quando a criança parecer cansada.
• Conversar com os pais sobre as rotinas diárias em casa, verificando se Lucas tem oportunidade para fazer brincadeiras quem envolvam escrita (ex: livros de palavras cruzadas, charadinhas), quem deve ajudá-lo e qual seria o melhor momento para fazer o dever de casa.


Modificar a tarefa: Como modificar o ambiente para dar suporte ao desempenho ?


• Usar caderno com pauta mais escuras e margens bem demarcadas.
• Afixar o papel na carteira com fita adesiva para dar estabilidade.
• Reduzir demanda por escrita, por exemplo, passando o dever de casa impresso.
• Valorizar interesse pela leitura e habilidade para contar estórias e permitir outras formas de expressão do conhecimento, via desenhos, encenação ou relato.
• Usar papel com texturas e cores variadas para escrita, experimentar diferentes recursos como caneta gel, cores vibrantes, canetinhas hidrocor, caneta vibratória.
• Dividir dever de casa em partes, para evitar cansaço.

Modificar as expectativas: O nível de exigência é compatível com a capacidade da criança ?


• Pais e professores devem ser esclarecidos sobre as dificuldades motoras da criança para que possam mudar suas expectativas de desempenho.
• Lucas é mais lento, portanto, deve-se dar mais tempo ou começar tarefa de escrita mais cedo que os colegas, para terminar ao mesmo tempo.
• Avaliar o progresso: Como verificar se a intervenção teve resultado ?
• Lucas escreverá com mais velocidade e melhor legibilidade.
• Vai de mostrar menos frustrado e mais interessado nos trabalhos de escrita.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outras metas de tratamento.


Fonte: Intervenções de Terapia Ocupacional, UFMG

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