22 de ago de 2011

Caderno, lápis, aprendizado e saúde

Como o trabalho dos terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas podem ajudar as crianças no ambiente escolar


Passamos boa parte de nossas vidas na escola. Lá aprendemos, desde muito cedo, a ler e escrever. Fazemos nossas primeiras descobertas, conquistamos amigos, convivemos em sociedade pela primeira vez. Nem tudo é aprendizado ou brincadeira. Os alunos ficam por horas sentados em suas carteiras, frequentam bibliotecas, brinquedotecas, áreas de convivência. O mobiliário desses ambientes não costuma ser adequado para todas as idades, estaturas e tipos de alunos. O peso das mochilas geralmente ultrapassa o índice aceitável. Além disso, segundo a legislação, os alunos que apresentam deficiência podem freqüentar as escolas regulares. Segundo a Lei de Diretrizes e Base da Educação de 1996 (LDB), a educação especial deve ser oferecida preferencialmente na rede regular de ensino. Desde então, essa política de inclusão dos deficientes está introduzindo milhares de alunos com necessidades especiais nas salas de aulas. Para lidar com as diferenças na escola, cuidar da saúde e zelar pelo bem-estar dos alunos, seja em ensino regular ou especial, o trabalho do terapeuta ocupacional e do fisioterapeuta é de extrema importância.


Terapia ocupacional para todos

Da educação infantil ao ensino médio, muitas transformações acontecem. O terapeuta ocupacional está presente em todos os momentos para promover a saúde e garantir que todas as crianças tenham acesso ao ensino de maneira total. Faz parte das suas funções analisar o desenvolvimento das habilidades motoras e de processamento da criança no ambiente escolar, sugerir adaptações ou modificações para os professores. “As orientações podem ser desde adaptação do espaço físico, mobiliário, dar um tempo extra para o aluno terminar as lições, até estratégias específicas para a escrita e atividade em sala de aula”, afirma a terapeuta ocupacional, Dra. Ariela Goldstein, que trabalha dando consultoria para escolas. O mobiliário adequado é uma questão que deve ser bem trabalhada, pois nenhuma criança é igual à outra, portanto as adequações devem ser feitas de acordo com cada uma. “Crianças de 6 anos agora estão entrando no ensino fundamental, podemos ver que mesas e cadeiras são muito grandes para elas”, observa a terapeuta ocupacional da Secretaria Educacional de Educação de São Bernardo do Campo, Dra. Cláudia Silvestre. “Quando fazemos a compra de mobiliário pensamos em crianças que apresentam deficiência e também as que não têm”, diz Dra. Cláudia, que está inserida no setor de Educação Inclusiva da cidade.


A equipe multiprofissional de São Bernardo do Campo conta com terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e assistente sociais. O foco do trabalho é a inclusão das crianças com deficiência em sala de aula da rede municipal de ensino. De acordo com a terapeuta ocupacional Dra. Ana Canet, atualmente são 1049 crianças com necessidades especiais nas 190 escolas da rede. Na maioria dos casos elas têm deficiência neuromotora.“Quando a gente pensa em educação inclusiva, não pensamos numa escola igual para todos, pois cada aluno apresenta a sua necessidade”, afirma Dra. Cláudia Silvestre. Segundo as terapeutas ocupacionais tudo é pensado para que a criança tenha acesso ao conteúdo das aulas da melhor forma possível. “Quando um aluno chega à escola, principalmente se ele apresenta deficiência física, nós pensamos como ele vai sentar ou como vai ao banheiro e circular pelo espaço da escola”, afirmam.


As adaptações mais comuns são no mobiliário, mesas com entrada para cadeiras de rodas, cadeiras com apoio para pescoço e outras adequações. Para alunos com dificuldade na grafia, podem ser feitas adaptações motoras que venham favorecer uso funcional dos membros superiores, como os engrossadores de lápis. Para quem tem dificuldade visual ou postural é indicado o plano inclinado na hora de estudar. Para garantir o acesso à tecnologia e ao uso do computador, são usados recursos para usar o teclado, mouses diferenciados e softwares para a utilização dos professores.


O ambiente da escola dever ser...
• Amplo, ventilado e com boa iluminação;
• Ruídos de ventilação e automóveis devem ser eliminados;
• Figuras ilustrativas referentes ao conteúdo da aula podem ser usadas;
• É importante que as crianças tenham um espaço para guardar seus pertences;
• O espaço para a circulação deve ser adequado e o ambiente sempre limpo;
• Pequenos detalhes como plantas, objetos decorativos com temas apropriados para a idade tornam o ambiente mais convidativo.


A figura do terapeuta ocupacional torna-se indispensável para esse contexto de escola que agrega alunos de diferentes tipos, classes sociais e também deficiências, para isso é preciso saber socializar todos naquele espaço. Em 2002, uma pesquisa Científica publicada no The American Journal of Occupational Therapy, respeitada revista americana da área sustentou a necessidade de terapeutas ocupacionais nas escolas para facilitar a socialização das crianças. O estudo realizado pela Dra. Pamela K. Rocha, PhD e Professora Assistente na Universidade de San Jose, Califórnia, avaliou 3 crianças de 5 a 8 anos de idade, que apresentavam deficiência física e estavam matriculados em escola regular.


Terapia Ocupacional e as Escolas Especiais


Apesar de os alunos com deficiência cursarem preferencialmente os estudos em escolas regulares, escolas especiais continuam existindo, em alguns casos até como forma de complemento. O Lar Escola São Francisco, centro de Reabilitação Médica, que atende pessoas com deficiência física e mobilidade reduzida, em São Paulo, tem uma Escola Especial com capacidade para 120 alunos, com idade entre 4 e 15 anos.


A terapeuta ocupacional, Dra. Ester Midori Sugano, trabalha há doze anos na instituição. Outros profissionais também atuam como fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos, entre outros. Segundo ela, a escola costuma receber alunos com problemas físicos associadas a deficiências de alta complexidade, como disfunções neurológicas, deficiências sensoriais, intelectuais e dificuldades na comunicação. “Nosso trabalho consiste em avaliar os alunos e promover o desempenho funcional dele nas atividades escolares. Nós indicamos ou confeccionamos adaptações, objetivamos a adequação postural e trabalhamos na formação dos professores e dos atendentes”.


Mesmo trabalhando em escola especial, Dra. Ester crê na relevância do profissional da área no ambiente pedagógico de uma forma geral. “Gostaria que toda escola possuísse pelo menos um terapeuta ocupacional”, diz


Fisioterapia no ambiente escolar


A principal demanda do fisioterapeuta nas escolas é quanto à postura desses alunos e o posicionamento correto nas cadeiras. Os desvios posturais decorrentes do peso das mochilas podem causar graves impactos na saúde. Portanto é preciso orientar alunos e pais que a bagagem carregada não pode ultrapassar 10% do peso da criança. O tema entrou em pauta na tese de mestrado que a fisioterapeuta Profa. Dra. Susi Mary de Souza Fernandes defendeu na Faculdade de Medicina da USP. A pesquisa intitulada “Efeitos da Orientação Postural na Utilização de Mochilas Escolares em Estudantes do Ensino Fundamental” foi realizada em 2007.


O trabalho de orientação postural realizado pelos fisioterapeutas nas escolas é essencial. Crianças e adolescentes que carregam excesso de peso, apresentam desvios na postura acabam tornando-se adultos com problemas de coluna. Segundo dados da OMS, 85% da população vai viver ao menos um episódio de dor nas costas ao longo da vida.


Para fisioterapeutas que trabalham com alunos especiais, cadeirantes, por exemplo, é necessário tirá-los dá cadeira para que ele se exercite, é o que diz a fisioterapeuta do Lar Escola São Francisco, Dra. Kelly de Jesus Santana. “Eu faço algumas atividades, para tirar esse aluno da cadeira de rodas e isso favorece também o seu aproveitamento em atividades escolares”.

Dra. Kelly é favorável a presença do fisioterapeuta na escola. “Ele pode contribuir desde posicionamento correto, os desvios posturais decorrentes, o peso das mochilas, até na mobilidade do aluno na escola, observar se existem barreiras arquitetônicas, acho que seria muito interessante”, conclui.



Fonte: Revista Crefito 3 - agosto 2011




Para saber mais:
Leis de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996
http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/ldb.pdf
Decreto nº 6.571, de 17 de setembro de 2008 que dispõe sobre o atendimento educacional especializado
http://www.jusbrasil.com.br/legislacao/93163/decreto-6571-08

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