17 de mar de 2009

A criança e seu desenho

Desenhar, pintar ou construir constituem um processo complexo em que a criança reúne diversos elementos de sua experiência para formar um novo e significativo todo. No processo de selecionar, interpretar e reformar esses elementos, a criança proporciona mais do que um quadro ou uma escultura; proporciona parte de si própria: como pensa, como sente e como vê”

“O desenho expressa a compreensão que a criança tem de si própria e de seu meio e portanto seu desenvolvimento intelectual. Variáveis emocionais, perceptuais e o envolvimento afetivo com o desenho podem contudo, interferir na produção. Usualmente, porém, um desenho rico em pormenores temáticos provém de uma criança dotada de elevada capacidade intelectual”.

O desenvolvimento físico da criança se manifesta na crescente habilidade de coordenação visual e motora, no controle corporal que determina a orientação do traçado. A percepção visual determina a crescente sensibilidade à cor, forma e espaço. Inicialmente exclusivo exercício e reconhecimento da cor e posteriormente luzes diferentes para diferentes condições atmosféricas. O espaço imediato e circundante amplia-se e modifica-se a forma como a criança o percebe. Experiências auditivas são incorporadas e as sensações cinestésias são a base para a variedade de formas artísticas.


“Espaço, forma, cores, contexturas, sensações cinestésicas e experiências visuais acrescentam uma multiplicidade de estímulos para a expressão. As crianças que são raramente afetadas por experiências perceptuais mostram escassa capacidade para observar e pouca perspicácia para apreciar as diferenças nos objetos.”

Os desenhos refletem, ainda, o desenvolvimento social das crianças. Partem geralmente do contorno de uma pessoa e paulatinamente incluem o meio social com suas múltiplas influências.


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FASE DAS GARATUJAS – 2 A 4 ANOS


Em torno de dezoito meses a criança apresenta seus primeiros registros. Rabiscos que futuramente lhe conduzirá ao desenho e também à palavra escrita.

Garatujas desordenadas:


“Os primeiros traços são, geralmente fortuitos, e a criança parece não se aperceber de que poderia fazer deles o que quisesse. Variam de comprimento e direção, embora possam repetir-se algumas vezes, à medida que a criança movimenta o braço para trás e para frente”.


Pode estar olhando para outro lado, vários métodos de preensão são utilizados, e o controle é dado pelas articulações/grupos musculares de ombro e cotovelo. A dimensão do movimento é determinada pelo tamanho da criança e ela tende a repetir os movimentos mais amplos (sob os quais exercita maior controle). Não há uma preocupação em reproduzir o meio visual, portanto, não há ligação entre a prazerosa tarefa de distribuir linhas e alguma representação “real”. Segundo Lowenfeld (1970) tentar reconhecer algo seria como tentar ensinar a um bebê, que apenas balbucia, a pronunciar, corretamente, as palavras ou a usá-las em frases gramaticalmente certas (p. 49) interconectadas por vias neurais específicas. O fato da criança não exercer controle visual sobre suas garatujas informa que não está madura para tarefas do dia-a-dia que pressupõe controle motor seguimento visual (comer sem derrubar, manipular botões etc). Observar: movimentos isolados/ausência de flexibilidade.



Garatujas Controladas:


Nesta etapa a criança identifica uma relação entre seus movimentos e os traços que faz no papel.

“Isto pode ocorrer, mais ou menos seis meses após ter começado a garatujar.” e indica a aquisição do controle visual sobre os movimentos. A produção mostra variações de direções que são repetidas com vigor: traços verticais, horizontais ou circulares e começa a fazer relações entre seu desenho e coisas do meio. Por volta de três anos apresenta preensão trípude e pode copiar linha, cruz ou círculo. A sistematização da nomeação das garatujas indica


“uma transformação no pensamento da criança. Antes deste estágio, ela estava satisfeita com os movimentos, mas agora, passou a ligar esses movimentos com o mundo à sua volta. Transferir-se do ‘pensamento’ cinestésico para o pensamento imaginativo.”
Assim, é neste ponto que a criança desenvolve uma base para a retenção visual.”


Nesta etapa a criança desenha com uma intenção e alguns dos movimentos circulares e traços longitudinais parecem se unir para formar uma pessoa.


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FASE PRÉ ESQUEMÁTICA – 4 A 7 ANOS


Definida pela criação consciente da forma na qual a criança busca estabelecer uma relação com o que pretende representar. É típico o homem “cabeça-pés” na produção de crianças de 5 anos.


“Outro ponto de vista admite que esta é a representação do que a criança, de fato, sabe sobre si mesma, e não uma representação visual do todo. A cabeça é o lugar onde se come e se fala. (...) sem dúvida, os olhos, os ouvidos e o nariz fazem da cabeça o centro da atividade sensorial. A adição de pernas e braços faz desse centro algo móvel e pode indicar um ser realmente funcional”.

Por volta dos seis anos esta figura foi acrescida de braços, pernas e do corpo. Não há inicialmente relação entre a cor escolhida e o objeto representado e o espaço está primordialmente relacionado com seu corpo e consigo mesma.


“(...) a incapacidade da criança para relacionar as coisas entre si no espaço, em seus desenhos, é uma clara indicação de que ainda não amadureceu para cooperar socialmente e de que ainda não possui aptidão necessária para relacionar, mutuamente, as letras ou para aprender a ler.”


Através do desenho a criança expressa sua percepção: A conscientização de todos os sentidos (auditiva/cinestésica/visual etc.); neste sentido passa, inclusive, a utilizar linhas diferenciadas para explicitar contextos específicos (6 anos).


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FASE ESQUEMÁTICA – CONCEITO E FORMA - 7 A 9 ANOS


Como resultado das inúmeras experiências a criança adquire o conceito definido do homem em seu meio.


“Embora não exista um momento mágico para o súbito aparecimento e a formação de um ‘esquema’, a maioria das crianças alcança esta fase por volta dos sete anos. (...) O esquema pode ser determinado pelo modo como a criança vê alguma coisa, pelo significado emocional que ela lhe atribui, pelas suas experiências cinestésicas, pelas impressões táteis do objeto ou pela forma como o objeto funciona ou se comporta.”

A expressão esquema humano se refere ao conceito de figura que a criança criou, após esta experimentação. É freqüente as representações do tipo “raio X”, na qual tanto o interior quanto o exterior são importantes. Nesta fase a criança demonstra consciência da existência de uma ordem definida nas relações espaciais. Passa a utilizar uma “linha de base” sob a qual os diversos elementos se relacionam mutuamente. Pode-se observar maior relação entre objeto e cor.

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O REALISMO – 9 A 12 ANOS


Nesta etapa, marcada pelo desenvolvimento do conceito de que a criança, é, na verdade, membro de uma sociedade constituída pelos seus pares, verifica-se a modificação daquela figura humana esquemática para figuras humanas com características sexuais (calça para meninos, vestidos para as meninas). Não são tão freqüentes as omissões ou exageros que na fase anterior eram determinadas pela importância relativa das partes do desenho. Agora ampliou-se a consciência visual e as partes mais significativas emocionalmente, ganham detalhes e não necessariamente tamanho.


“Maior conscientização e interesse pelos detalhes. Nesta fase do desenvolvimento, podem levar a criança ao ponto de se desenhar a mão esquerda muito diferente da direita.”


Os desenhos do tipo raios X são vistos como antinaturais e este modo de representação subjetivo é gradativamente substituído pela expressão mais objetiva de seus interesses (carros, cavalos). O naturalismo implica em maior aproximação da cor e tonalidades reais dos objetos/paisagens e a linha de base progride para a descoberta de planos. Para a maioria das crianças esta progressão se dá pelo preenchimento dos espaços entre as linhas. “A linha do céu já não é traçada de lado a lado, no topo da folha de papel. Ela estende-se, agora, para baixo, adquire o significado de horizonte.” Contudo, algumas crianças mantém a utilização da linha de base e o exagero das partes significativas.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LOWENFELD, Viktor. A criança e sua arte. São Paulo: Mestre Jou, 1977.
________ & BRITAIN, W.L. Desenvolvimento da capacidade criadora. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

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