24 de fev de 2017

COMO USAR HISTÓRIAS SOCIAIS



Histórias sociais são comumente usadas para crianças com TEA (Transtorno do Espectro do Autismo). Histórias sociais são descrições curtas e simples que são criadas com a intenção de ajudar a criança a entender uma atividade ou situação particular, junto com comportamentos que são esperados da criança nessa situação particular. Essas histórias também dão informações precisas sobre o que a criança poderia testemunhar ou experimentar em uma situação particular.

PARTE 1 - Criando uma História Social

Decida o assunto da sua história.
 Algumas histórias sociais devem ser usadas de forma geral, enquanto outras têm como objetivo um evento, situação ou atividade específica.
  • Exemplos de histórias sociais que podem ser usadas de forma geral são: como lavar as mãos, como organizar a mesa para o jantar. Exemplos de histórias que têm objetivos específicos são: ir fazer um check-up no médico, andar de avião.
  • Histórias sociais que têm um propósito geral podem ser lidas e revisadas uma ou duas vezes por dia, dependendo da criança e da habilidade que ela tem de entender o comportamento. Mas as histórias sociais que têm um propósito específico devem ser lidas ou revisadas bem antes do evento ou da atividade.
  • Por exemplo, uma história social sobre visitar o consultório do médico para fazer um check-up deve ser lida bem antes de a criança sair para o check-up.

Limite sua história em apenas um assunto.
 Uma criança com TEA não consegue lidar com muitas coisas ao mesmo tempo. Então tenha cuidado com as informações dadas através de histórias sociais, de forma que uma única história lide apenas com um comportamento particular, com uma emoção, evento ou situação. Isso é porque crianças com TEA acham extremamente difícil absorver mais de uma única ideia ou informação de uma vez.
Faça com que o personagem principal seja semelhante à criança. Tente fazer o herói da história parecer com a criança. Você pode fazer isso através da aparência física, do gênero, do número de membros da família que a criança tem, interesses ou habilidades.
·         Quando a criança começar a perceber que a criança da história e ela são semelhantes, será mais fácil para você, como a narradora, transmitir sua mensagem. A esperança é que a criança comece a se relacionar com a história e faça o que o personagem faça.
·         Por exemplo, quando você for contar uma história ao Alexandre, você pode dizer “Era uma vez um garoto chamado Alex, ele era inteligente, esperto, alto, bonito e amava jogar basquete como você.”

Pense em transformar a sua história em um pequeno livro.
 Histórias podem ser lidas para a criança, ou ela pode levar na forma de um livro simples, que ela pode sempre carregar em uma mochila e ler sempre que sentir vontade.
  • Crianças com autismo aprendem melhor através da visão, então figuras, fotos e desenhos podem ser incluídos na história para chamar a atenção dela e fazê-la parecer mais interessante para a criança.
  • O aprendizado pode ser maximizado quando a participação da criança é voluntária em vez de imposta
Crie histórias sociais positivas. Histórias sociais devem sempre ser apresentadas de forma que a criança consiga associá-las com comportamentos positivos, instrumentos positivos para combater emoções negativas, e formas positivas de abordar e aceitar situações e atividades novas.
  • A história social não deve ter nenhum tom negativo. A atmosfera, a atitude e o tom faz pessoas envolvidas na apresentação da história devem ser positivos, confortantes e pacientes o tempo todo.
Envolva as pessoas que aparecem como personagens na história. Ajuda envolver diretamente as pessoas que têm uma parte história: por exemplo, se a história for sobre compartilhar os brinquedos com os outros, pode ser útil envolver o irmão ou um amigo da criança.
  • A criança conseguirá se relacionar melhor e também ver por si mesmo como é compartilhar com os outros, e poderá ver a mudança na atitude do irmão ou do amigo em relação a ela quando ela está disposta a compartilhar.
  • Isso irá encorajar comportamentos cada vez mais positivos e recompensadores.
Mantenha o humor da criança em mente quando for contar uma história. O tempo, o local e o humor devem ser levados em consideração ao apresentar uma história social à criança: ela deve estar em um humor sem ansiedade, renovada, relaxada e energética.
  • Você não deve contar a história quando a criança estiver com fome ou cansada. A essência da história não poderá ser absorvida pela criança quando seu humor e energia estiverem comprometidos.
  • Além disso, o local não deve ter luzes muito fortes, barulhos ou outras distrações às quais a criança pode ficar sensível. Contar uma história em circunstâncias erradas não vale a pena.
Considere contar uma história social sobre um comportamento específico bem antes de você pedir para a criança demonstrar esse comportamento. Histórias sociais são altamente eficazes quando contadas antes que o comportamento esperado tenha que acontecer.

·         Como a história estará bem fresca na mente da criança, ela irá se lembrar do que aconteceu e espera-se que ela tente agir da mesma forma que ela ouviu na história.
·         Por exemplo, se a história for sobre compartilhar seus brinquedos, a professora pode ter uma sessão de histórias bem antes da hora do intervalo, para que o efeito fique fresco na mente da criança durante o intervalo, onde ela pode praticar o compartilhamento dos brinquedos com as outras crianças.


Crie histórias diferentes para necessidades diferentes.
 Histórias sociais também podem ser usadas para ajudar uma criança com TEA a lidar com emoções e sentimentos incontroláveis. Por exemplo, essas histórias podem envolver narrativas sobre o que fazer quando você não sente vontade de compartilhar seus brinquedos com os outros, como lidar a com a morte de uma pessoa amada, etc.
  • Histórias sociais também podem ensinar as habilidades sociais necessárias para a criança, como se comunicar com os outros de forma que não cause um conflito, comunicar as necessidades e desejos de maneira adequada, construir amizades e relacionamentos. Isso é necessário frequentemente, porque crianças com TEA não tem muitas habilidades sociais adequadas.
  • Histórias sociais também podem transmitir habilidades para a criança que são essenciais para a manutenção da limpeza e da higiene, por exemplo, o que fazer depois de acordar, como usar o vaso sanitário, como lavar as mãos, etc


Peça para a criança lhe contar uma história.
 Histórias são as melhores formas para uma criança comunicar sua cognição com outras pessoas. Às vezes, peça para a criança lhe contar uma história que ela tenha criado. Através dessa história, tente ver se ele inclui as histórias que você têm contado a ela, ou se ela inventa a própria história.
  • Geralmente, crianças criam histórias sobre o que elas passam todos os dias, ou sobre o que elas gostariam de viver todos os dias. Com a ajuda dessas histórias, tente julgar se seu filho está pensando da forma correta ou se ele está falando sobre coisas que não são apropriadas para a idade dele. Também tente identificar se ele está passando por algum problema que ele pode contar na história.
  • Por exemplo, se a criança contar uma história como “uma vez, tinha uma garota muito malvada que batia em todo mundo na escola e roubava a comida dos colegas”. Dessa forma, seu filho pode estar tentando lhe contar sobre um problema de bullying que ele pode estar tendo na escola com ‘essa’ garota.

Substitua uma história com outra história quando seu filho entender o conceito sendo transmitido. As histórias sociais podem ser modificadas dependendo das habilidades que a criança obtém. Você pode remover certos elementos de uma história e adicionar novos elementos para se adequar à condição atual da criança.
  • Por exemplo, se a criança agora entende como pedir um intervalo quando se sentir sobrecarregado, então a história que lida com esse comportamento pode ser mudada ou a frequência com que você conta essa história em particular pode ser reduzida.

PARTE 2 - Aprendendo Frases das Histórias Sociais

Crie frases descritivas. Essas frases falam sobre uma situação ou evento particular, então dê detalhes como quem são os participantes ou quem está envolvido na situação, o que os participantes vão fazer e o motivo por trás do envolvimento deles. As frases incluem ‘onde’, ‘quem’, ‘o que’ e ‘por que’.
  • Por exemplo, se uma história for sobre lavar as mãos depois de usar o banheiro, frases descritivas devem ser usadas para falar sobre a situação e fornecer situações sobre quem deve lavar as mãos e por que (para prevenir a propagação de germes).
  • Frases descritivas fornecem informações factuais.

Use uma frase de perspectiva para transmitir pensamentos e emoções. Essas frases falam sobre a psique da pessoa em relação a uma situação particular, incluindo as emoções da pessoa, pensamentos e humor.
  • Por exemplo, “mamãe e papai gostam quando eu lavo minhas mãos. Eles sabem que é bom lavar as mãos depois de usar o banheiro.”


Use frases diretivas para ensinar a criança sobre respostas adequadas.
 Use frases diretivas para falar sobre respostas ou comportamentos desejados.
  • Por exemplo: “Eu vou tentar lavar minhas mãos toda vez que eu usar o banheiro”.

Use frases afirmativas para destacar outras frases. Frases afirmativas podem ser usadas com as frases descritivas, de perspectiva ou diretivas.
  • Frases afirmativas aumentam ou destacam a importância da frase, seja se for descritiva, de perspectiva ou diretiva.
  • Por exemplo, “Eu vou tentar lavar minhas mãos depois de usar o banheiro. É muito importante fazer isso”. A segunda frase está destacando a importância de lavar as mãos.

Crie frases cooperativas que ensinam a importância das outras pessoas. Essas frases fazem a criança entender/perceber a importância dos outros na situação ou atividade.
  • Por exemplo, “Tem muito trânsito na pista. Minha mãe e meu pai podem me ajudar a atravessar a rua”. Isso ajuda a criança a entender que ele precisa cooperar com a mãe e com o pai para poder atravessar a rua.

Escreva frases de controle para servir como lembretes para a criança. Frases de controle devem ser escritas a partir da perspectiva da criança com DEA para ajudá-la a lembrar e aplicar a frase em uma situação particular. Elas são como frases personalizadas.
  • Por exemplo, “Eu preciso comer vegetais e frutas em toda refeição para ficar saudável, assim como as plantas precisam de água e da luz do sol para crescerem.”
Use frases parciais para ajudar a história a se tornar interativa. Essas frases ajudam a criança a adivinhar algo sobre a situação. A criança poderá adivinhar o próximo passo em uma situação.
  • Por exemplo, “meu nome é ----- e o nome do meu irmão é ------- (frase descritiva). Meu irmão vai se sentir ------ quando eu compartilhar meus brinquedos com ele (frase de perspectiva).”
  • Frases parciais podem ser usadas com frases descritivas, de perspectiva, cooperativas, afirmativas e de controle, e podem ser usadas quando a criança tiver um bom entendimento sobre certas situações e sobre quais comportamentos são adequados e esperados dela.
PARTE 3 - Usando Histórias Sociais para Propósitos Diferentes
Entenda que histórias diferentes podem servir para propósitos diferentes. Histórias sociais podem ser usadas para vários propósitos diferentes, por exemplo: para acostumar a criança a qualquer mudança na rotina, a novos ambientes, para eliminar os medos e as inseguranças dela, para ensiná-las sobre higiene e limpeza, para apresentar certos procedimentos a elas, etc.
Conte para a criança uma história que a ajude a expressar suas emoções e pensamentos. Por exemplo, a história pode ser algo como “Eu estou com raiva e triste. Eu sinto vontade de gritar e bater nos outros. Mas isso iria deixar as pessoas chateadas e ninguém iria querer brincar comigo. Minha mãe e meu pai disseram que eu devo dizer para um adulto que está comigo que eu me sinto frustrado. Eu estou respirando profundamente porque isso me impedirá de gritar e bater nos outros. Eu vou me sentir melhor em breve.”

Use uma história para ajudar a criança a se preparar para uma visita ao médico ou ao dentista.
 Uma história social específica deve ser desenvolvida para preparar mentalmente a criança para o que ela pode esperar ver e experimentar no consultório do médico.
  • Isso é muito importante porque tem-se observado que crianças com autismo geralmente são incomodadas por luzes fortes, barulhos altos, proximidade e por toques, devido à sua reação exagerada a estímulos sensoriais. Uma consulta com o médico envolve a maioria das coisas citadas acima. Portanto, é essencial para a criança estar preparada, treinada e equipada mentalmente para encarar essas visitas e cooperar com o médico e com os pais.
  • As histórias podem abordar aspectos como a aparência do consultório do médico, quais brinquedos e livros de criança ele pode usar no consultório, como será a iluminação, como serão os procedimentos, como ele deve responder ao médico, etc.
Crie uma história que apresente conceitos, regras e comportamentos novos. Histórias sociais podem ser usadas para apresentar à criança novos jogos e esportes durante as sessões de educação física. Elas podem aprender uma habilidade envolvida para jogar futebol ou basquete.
  • Histórias sociais também pode ajudar a ensinar a criança sobre os comportamentos sociais esperados ao praticar esportes. Por exemplo, a criança pode não estar disposta a compartilhar ou passar a bola para outras crianças envolvidas. Então ao ensinar a elas as habilidades e técnicas de jogar futebol ou basquete, as histórias sociais podem ser introduzidas e integradas com as lições para ensiná-las a compartilhar, por que é importante compartilhar, etc.
  • Esporte é uma área que pode ser usada para ensinar às crianças com DEA as habilidades da vida. Através de histórias sociais sobre esportes, a criança pode aprender habilidades sociais, que podem dar uma oportunidade para ela fazer amizades e ganhar confiança.
Conte para a criança uma história social que ajude-a a reprimir seus medos. Histórias podem ser usadas se uma criança com DEA estiver começando a ir para a escola ou mudando de escola, mudando para uma casa nova ou indo para outra série. Qualquer que seja a razão, mudanças podem causar medo e ansiedade.
  • Então a criança pode ser apresentada a uma nova série, vizinhança ou escola através de histórias, com histórias individuais falando sobre a nova classe, a hora do intervalo, a biblioteca, o parquinho. Com essas histórias, você pode tentar familiarizar a criança ao novo ambiente, levando-a para visitar.
  • Como a criança já visitou os lugares através das histórias, ela se sente menos insegura e menos ansiosa para explorar o lugar. É fato que crianças com DEA acham difícil lidar com mudanças. Mas quando essas mudanças são planejadas e há uma preparação envolvida, a criança pode aceitar com menos resistência.
Divida as histórias em partes para ensinar a criança sobre os comportamentos desejados. Às vezes, histórias podem ser divididas em partes para simplificar a compreensão da criança. Pode ser útil para eventos significantes, como se preparar para uma viagem de avião.
  • A história precisará ser muito detalhada, e envolverá coisas como a necessidade de esperar na fila, a necessidade de esperar na sala, o que a criança deve fazer enquanto espera, como ela deve se comportar – ficar com a mãe ou o pai, segurar a mão deles, sem gritar.
  • No exemplo acima sobre viajar de avião, a primeira parte da história pode falar sobre situações que envolvem se preparar para a viagem, como fazer as malas e sair para o aeroporto, por exemplo:
  • "O lugar para onde estamos viajando é mais quente do que nossa cidade, então eu preciso levar roupas mais leves, sem jaquetas pesadas. Pode chover de vez em quando, então eu preciso levar um guarda-chuva. Eu terei muito tempo para mim mesmo nesse lugar, então eu vou levar meus livros preferidos, meus brinquedos pequenos e meus jogos.”
Crie a segunda e terceira parte da história sobre o comportamento adequado. A segunda parte pode falar sobre o que a criança pode esperar ver no aeroporto, por exemplo:
  • "Haverá muitas pessoas no aeroporto. Isso é normal porque elas estão viajando, assim como eu. Minha mãe e meu pai têm um bilhete de passagem, e assim nós temos permissão de ir para o avião. Para isso, nós precisamos esperar a nossa vez na fila. Isso pode demorar um pouco. Eu posso ficar na fila com mamãe e papai ou eu posso me sentar no carrinho perto deles. Eu também posso ler um livro se eu quiser.”
  • A terceira parte pode falar sobre o que esperar quando a criança já estiver no voo e como se comportar adequadamente. Por exemplo: “Haverá filas e poltronas e muitas pessoas no voo. Um estranho pode se sentar do meu lado, mas não tem problema. Eu tenho que colocar o sinto assim que eu me sentar no avião, e eu devo sempre manter o cinto afivelado. Se eu precisar de algo, ou precisar dizer algo, eu devo dizer bem baixinho para mamãe e papai. Não devo gritar, chutar, rolar, bater... eu tenho que ficar calmo o tempo todo no avião e ouvir mamãe e papai.”
DICAS
  • As frases descritivas e de perceptiva devem dominar as frases diretivas e de controle. Você deve usar apenas 1 frase diretiva ou de controle para cada 4 a 5 frases descritivas e de perspectiva.
  • Histórias sociais podem ser usadas tanto na sala de aula como em casa. Elas não envolvem nenhuma complexidade, então podem ser usadas por professores, terapeutas e pais.
  • Histórias sociais são usadas para preparar a criança para algo (estar em um evento, para um dia, para um local…) com uma visão para ajudar a criança a aceitar as mudanças, para que ela saiba o que esperar, para que ela saiba que não tem problema fazer algo, para que ela entenda quais são os comportamentos adequados em uma situação social em particular e para motivar os melhores comportamentos possíveis da criança.

FONTES E CITAÇÕES


10 de fev de 2017

Integração Sensorial e Autismo



Com o enorme número de casos de autismo diagnosticados a cada dia que se passa, cresce a preocupação em entender melhor esse quadro e encontrar novas formas de auxiliar as pessoas que estão no espectro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Desde o início de suas pesquisas sobre integração sensorial foi evidente para a Dra. Jean Ayres que a integração sensorial poderia ser uma boa ferramenta no tratamento das crianças com autismo, já que a grande maioria deles apresenta distúrbios no processamento sensorial.

         Existem vários estudos que mencionam a presença de dificuldades sensoriais nas pessoas com TEA; as porcentagens encontradas variam de 30% em um estudo, até 100% em outros. Os terapeutas que trabalham com crianças do espectro autista sabem que a presença de dificuldades sensoriais é um fator importante no comportamento de muitas crianças com TEA. Esse reconhecimento aumentou o interesse em usar essa abordagem como parte do tratamento de crianças diagnosticadas com autismo. (Schaaf, R and Mailloux, Z, 2015).

         O foco da terapia com abordagem de integração sensorial no TEA é melhorar o processamento sensorial com objetivo de:

  • Aumentar a participação nas atividades diárias e, consequentemente, a participação social;
  • Ampliar o repertório de brincadeiras e diminuição de comportamentos repetitivos e /ou estereotipados.
  • Diminuir o desconforto da pessoa em situações em que o processamento sensorial atípico cause uma desregulação.

        Greenspan: " Por 60 anos os tratamentos para os transtornos do espectro autista focalizaram nos sintomas diagnósticos ao invés dos problemas subjacentes. Como resultado, os objetivos para cada criança frequentemente limitaram-se a mudanças em comportamento, tornando o prognóstico a longo prazo muito pessimista".  

Quando se usa uma abordagem de integração sensorial no tratamento de uma pessoa com autismo, tenta-se entender em profundidade como é o processamento sensorial dessa pessoa e de que forma ele afeta os comportamentos apresentados. Por muito tempo a terapia de integração sensorial no autismo focou na modulação sensorial, provavelmente porque são os sintomas mais evidentes e os que causam grande desregulação. Assim, sabe-se que uma pessoa que bate a cabeça no chão provavelmente está em uma sobrecarga sensorial e está tentando se regular. Ao cobrir os ouvidos em um ambiente barulhento está mostrando que sua audição, mais sensível, está sofrendo com estímulos que são maiores do que seu sistema nervoso pode tolerar.

 A modulação sensorial da pessoa com TEA se faz de uma forma diferente de pessoas que apresentam somente um distúrbio de integração sensorial, sem outras comorbidades. Os padrões de processamento tendem a ser mais extremos e fatores de hiper e hipo processamento coexistem. Existe uma tendência por exemplo, de uma hipersensibilidade auditiva, que coexiste com um visual muito forte. Ao mesmo tempo, pode haver um limiar muito alto para tato ou gustação. Não é incomum vermos crianças que comem cebola ou alho cru, ou que têm uma gustação tão aguçada que consegue diferenciar se foi a mãe ou a avó que temperou o feijão. Essa percepção gustativa pode fazer com que a criança se torne excessivamente seletiva em relação ao que come, procurando sempre a mesma marca, ficando muito rígida em relação a alimentação. Todos esses fatores são causas de um maior isolamento social e de dificuldades para a família.

Atualmente sabemos que, além dos problemas de modulação, que foram o maior foco até recentemente, a dificuldade nas praxias também impacta o desenvolvimento da pessoa com TEA. Muitas vezes a mesmice nas brincadeiras é causada por uma dificuldade de saber o que fazer com as coisas, o que chamamos de falta de ideação. A criança aprende que uma brincadeira funciona e repete sempre a mesma, não aceitando variações. Ou não consegue planejar como jogar uma bola ou como antecipar para pegá-la e se desinteressa da brincadeira. A dispraxia é um fator muito limitante ao aumento de repertório de brincadeiras. Muitas vezes a criança com dispraxia parece ter uma integração sensorial adequada porém, o mau processamento do sistema vestibular, tátil e proprioceptivo, fazem com que a praxia seja pobre.

A terapia de integração sensorial bem aplicada, por um profissional com treinamento específico nessa área, pode ser combinada com outras abordagens e contribuir muito para um desenvolvimento mais  amplo.

Texto de Heloiza Goodrich

Como ajudar a sua criança a recortar !

Criar oportunidades para que seu filho posso recortar livremente é de extrema importância para o seu desenvolvimento motor e super importante para o seu desenvolvimento acadêmico.
Hoje em dia, nas escolas, assistimos a uma ambivalência na introdução das tarefas com tesouras, uma vez que estas trazem consigo alguns riscos na sua utilização. Esta cautela torna-se, não raras vezes num excesso de zelo que é prejudicial ao desenvolvimento das crianças. Competências para recortar não aparecem de repente do desenvolvimento da criança, são alvo de uma maturação demorada e que requere a prática serena e repetitiva de muitas passos até à perfeição. Convém então percebermos o que podemos fazer para ajudar a criança a ter mais sucesso e mais segurança no momento de usar as tesouras.
Quando é que o meu filho está pronta para recortar?
Obviamente que isso vai ser diferente de criança para criança mas há alguns sinais que nos indicam acerca de preparação da criança para as tarefas de tesoura e papel. Para ser capaz de recortar a criança tem que ser capaz de mover os seus dedos mãos e braços de forma bastante coordenada. Por outro lado, esta atividade promove o desenvolvimento de coordenação de lateral, coordenação olho mão e capacidades manipulativas.
Estamos habituados a pensar no recortar com uma tarefa de uma só mão que tem que pegar na tesoura e ser capaz de percorrer uma linha sem falhas. Contudo recortar é bem mais complexo do que isso. Não basta “apenas” pegar na tesoura corretamente, a criança deve também ser capaz de usar a mão contralateral (aquela que não pega na tesoura) para manter o papel na posição correta e em recortes mais complexos mover o papel à medida que avança. 
Normalmente a criança começa a mostrar interesse e capacidade para usar a tesoura por volta dos 2 anos de idade. Nesta fase os seus movimentos são simples e com movimentos associados do resto do corpo na altura de abrir e fechar as tesouras. Por volta dos 28 meses a criança começa a cortar o papel com maior fluidez e é possível ver-se já uma tentativa de recortar pelas linhas.
É desde já importante selecionar a melhor ferramenta de trabalho. Quando a criança está a começar, o ideal é usarmos uma tesoura de mola, (idealmente sem lâmina) deste gênero:
O problema da falta de lâmina é que muitas vezes trava e acaba por rasgar o papel, deixando a criança frustrada. Com a sua supervisão pode experimentar tesouras com mola e lâmina, que serão o passo de progressão natural:


Estas tesouras encontram-se facilmente em qualquer superfície comercial.
A mola ajuda na parte de abrir a tesoura, que normalmente é o mais complicado. Se houver dificuldade com o enfiamento dos dedos e posicionamento da mão, talvez seja boa ideia considerar uma tesoura menos exigente, tipo esta: 
Estas tesouras facilitam a pega e diminuem a exigência da tarefa. É especialmente interessante quando estamos a desenvolver as capacidades de recorte em crianças com Necessidades Educativas Especiais – o melhor será comprar na amazon. (Se conhecer algum sítio físico em Portugal que a venda, partilhe connosco!)
E como devo introduzir isto à minha criança? 
Primeiro temos que perceber que quando estamos a recortar o difícil não é só abrir e fechar a tesoura mas também (e às vezes principalmente) usar a mão contralateral/não-dominante para segurar no papel e rodá-lo quando for necessário.
Normalmente o papel que usamos é muito fino e mais difícil de controlar. Por vezes é mais fácil começar com papel de cartolina ou cavalinho, em pedaços mais pequenos (por exemplo A6) e ir gradualmente passando para um papel mais fino e mais largo. 
Eu costumo começar sempre por recortar plasticina – pequenos rolinhos que as crianças podem cortar em pedaços pequenos. É super divertido e não soa nada a trabalho e sim a brincar!
http://mamapapabubba.com/2013/07/11/strengthening-scissor-skills-with-play-dough/
Assim pode tentar o seguinte caminho:
  • minhocas de plasticina – cortar em bocadinhos;
    • podemos fingir que estamos a cortar salsichas
  • palhinhas de plástico (das que usamos para beber) e fazer o mesmo – cortar aos pedacinhos;
  • tiras de papel cavalinho para cortar em quadradinhos pequenos – sem linhas – cortar à vontade;
  • tiras de papel cavalinho para cortar em quadradinhos pequenos – com linhas grossas – cortar em cima da linha;
    • podemos dizer que a tesoura é um comboio e pode passar em cima da linha
  • Tiras de papel mais larga e continuamos a cortar em cima da linha;
    • Podemos jogar com a grossura das linhas para ser mais fácil para a criança cortar em cima delas e ter sucesso
  • Ir graduando… aumentando a largura do papel, comprimento da linha e/ou grossura do papel;
Após estes passos, começamos a introduzir as linhas curvas e os círculos. Para isso respeitamos as questões que falamos acima para a grossura do papel e linha e vamos começar com linhas retas e aproximando das curvas, por exemplo:
Para chegarmos ao círculo começamos por recortar formas “circulares” com linhas retas:
E agora… é repetir! A prática leva à perfeição lembra-se? Então dê tempo e oportunidades para que a sua criança possa dominar todo este complexo processo. Não a pressione! Apenas dê o suporte necessário!
Texto retirado de :https://marcoleaoto.wordpress.com/2016/12/14/como-ajudar-a-sua-crianca-a-recortar/

Por que a Terapia Ocupacional é importante para o Autismo ?

Estima-se que 60 a 70% das crianças com TEA (Transtorno do Espectro Autista) apresente um distúrbio sensorial (Adamson, 2006). Estudos têm ...